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POESIA TODA

Coletânea de todos os poemas escritos por Alexandre Dale entre 1982 e 2002

Nome:
Localização: Portugal

março 03, 2005

CONSIDERAÇÕES FINAIS III

No sentido de avançar para a concretização do que propus fazer com os meus poemas, a saber:
a) Um recital poético que possa levar a quem me quiser ouvir;
b) Uma colectânea poética a partir do conjunto de todos os poemas, para fins de edição (uma espécie de best of);
e dada a minha proximidade com o meu próprio trabalho, o que me retira algum discernimento crítico, proponho aqui, a quem me visita, que me sejam endereçadas sugestões para definição de ambos os itens, em função dos gostos de cada um, ou seja:
Que poemas gostariam de ouvir ditos?
Que poemas gostariam de ler em livro?

Penso que esta seria uma bela forma de fazermos um livro que tivesse mais de toda a gente e menos de mim somente.

Sei que a vossa opinião implica que se debrucem na leitura deste blog todo, de fio a pavio, mas não era essa a ideia?

Aproveitando a vossa boa vontade, também aceito sugestões para lugares e iniciativas onde possa ir dizer os meus poemas e editoras de que tenham conhecimento e que possam estar interessadas na sua edição.

março 02, 2005

CONSIDERAÇÕES FINAIS II

Por forma a facilitar o acesso directo aos posts genéricos criados nos em www.poesiacomentada.blogspot.com colocarei aqui os respectivos links, pois que me parece que click-e-já-está é do melhor que há:

DO AUTOR
DO TRABALHO
DA OBRA

Mais aproveito para relembrar que também os links para os posts de análise serão accionados, logo que existam posts disponíveis nesse sentido, a partir do Índice Geral, colocado dois posts abaixo.

fevereiro 17, 2005

CONSIDERAÇÕES FINAIS I

Encerro então, aqui e hoje, este blog, mesmo que o mantenha dinâmico, como mais adiante explicarei. Todos os meus poemas, escritos entre 1982 e 2002, e tal como prometido, encontram-se aqui expostos, num total de 14 livros e de 202 poemas. Não fiz divulgação do blog em outros blogs ou sites (tirando alguns casos pontuais e circunstanciais), talvez porque, em primeira instância, a minha maior motivação fosse, cumprindo aquilo a que me comprometi comigo próprio, dar exposição, à razão de um por dia, a um poema novo, até os esgotar, ou seja, até não haver mais nenhum para mostrar.

Tentei, do que os meus arquivos pessoais me permitiram aperceber, apresentar os poemas de forma cronológica, ou seja, do mais antigo para o mais actual, apenas porque me pareceu essa forma a mais lógica de pôr estes poemas em cena.

Será de considerar agora, dado que a lucidez, suponho, é uma das poucas virtudes que me assiste, que não suponho os meus poemas nem piores nem melhores que quaisquer outros, e que os coloco à consideração pública não por vã vaidade, mas apenas porque acho que eles merecem um destino melhor que uma qualquer obscura e ignota gaveta. Mas disso outros que não eu julgarão melhor. Que fique claro tão só que desde 2002 que nenhum poema mais escrevi, para que esta espécie de livro mantivesse a sua "pureza" original. Sou um romântico, está visto, mas a minha fidelidade ao projecto original faz de mim um romântico verdadeiro. Pelo menos, assim espero ser entendido. Embora também deva dizer, em abono da verdade, que não escrevi mais poemas porque me apeteceu fazer uma pausa na escrita, um tempo de reformulação e acumulação de matéria para novas aventuras literárias.

Nota única: de todos estes poemas e livros, apenas um teve publicação, através de uma plaquette de 44 páginas, com a chancela do Clube Português de Artes e Ideias (em cujo concurso "O Teatro na Década", edição de 1996, foi merecedor de uma menção honrosa, na categoria de "Texto", de onde decorreu a edição aqui considerada), numa tiragem de 300 exemplares, a saber: POEMAS DA RECONSTRUÇÃO (depósito legal 99744/96, ISBN: 972-95745-2-9).
A edição em causa foi assinada apenas com o nome "Alexandre".

Deixando de parte estes considerandos, eventualmente de somenos importância, que mais haverá a relevar?

Em primeiro lugar, que o blog se manterá dinâmico, segundo as linhas mestras de que em seguida dou nota:
- Pontualmente, farei revisão dos poemas aqui presentes, nomeadamente no que diz respeito às tão indesejáveis quanto normais "gralhas", bem como de outros aspectos gráficos que me pareçam importantes para uma correcta leitura destes textos tal como so concebi: itálicos, negritos, textos justificados (ou centrados, ou alinhados à esquerda ou à direita, conforme cada caso), tipos de dimensões diferentes das usadas, etc.;
- Caso descubra, no caos organizado que é os meus papéis, novas datas para poemas até aqui classificados "sem data", essas novas datas entretanto determinadas serão apostas aos respectivos poemas, conforme os índices a que eles dizem respeito.

Entretanto, criei um novo blog, no endereço www.poesiacomentada.blogspot.com, onde farei análise e comentários dos poemas neste publicados.

Consoante a arte que me assistir, tentarei, para lá do link geral que atrás indiquei, montar um sistema de links entre os poemas e as suas respectivas análises (e vice-versa), através dos títulos dos poemas, bem como através desses mesmos títulos conforme são apresentados no "ÍNDICE GERAL", que se encontra à distância de um post abaixo.
Darei também, no novo blog atrás referido, notícias de três iniciativas que pretendo desenvolver nos próximos tempos, a saber:
a) Um recital poético, com poemas escolhidos a partir do conjunto geral que aqui apresento;
b) Um livro (colectânea) de poemas escolhidos a partir do conjunto geral aqui apresentado, e que não serão, necessariamente, os mesmos que apresentarei nos recitais atrás referidos;
c) Finalmente, um disco de poesia dita (circunstancialmente enquadrada em ambientes musicais e sonoros especialmente criados para o efeito), o qual, para não variar, também não terá de ser coincidente nem com os recitais nem com o livro-colectânea que pretendo dar ao prelo (há que conceder à poesia o que ela tem de mais original, ou seja (a par da simples estética): a imprevisibilidade (não acham?).

A todos os que me têm acompanhado, a todos os que aqui continuarem a vir, para ler, comentar e pensar ou sentir em conjunto, a todos os que aqui aparecerem apenas uma vez e a todos os que apareçam as vezes que lhes for possível, o meu obrigado, por antecipação, e o meu desejo de um grande prazer partilhado, se tal for o caso. Mesmo que doa. Ou que seja difícil. Ou que não seja claramente poesia. Porque poesia será, para lá de qualquer poema.

A todos, bem-vindos. A todos: a poesia não presta :). Mas isso já vocês sabem, não é?

fevereiro 16, 2005

ÍNDICE GERAL

Índice geral dos poemas, por livros e por datas (quando as houver).


AMOTINAÇÃO
fantasmas de guerrilha e solidão
(Data geral: Setembro 1982/ Setembro 1982)

- OS POETAS DA MINHA RUA: 14-15 Setembro 1982
- O DETECTIVE POÉTICO: s/ data
- BREVE CARTA AOS POETAS MAL CRIADOS
seguida de COMO SE FAZ UM POEMA: s/ data
- ACTO DE FÉ OU FINGIMENTO: s/ data
- OLARIA: s/ data
- A SOLIDÃO: s/ data
- AUTOCARRO 42: s/ data (1983)
- INTIMIDADE (electroencefalograma): s/ data
- UM POEMA DE AMOR USADO
- SE HOUVER LUTO NA MINHA MORTE


AS AMANTES DO CARNAVAL
(Data geral: (1978) - 1983, Abril - 1984)

- PRAIA OU ARGÉLIA: s/ data
- MAR OU ATLÂNTICO: s/ data
- FLORESTA OU EXCALIBUR: s/ data
- SELVA OU AMAZÓNIA: s/ data
- CARNE OU PLÁSTICO: s/ data
- ANIMAIS NOCTURNOS OU DESLUMBRAMENTOS: s/ data


ANJOS DEUSES POETAS MALDITOS
(Data geral: 11/10/83 - 1984, Junho)

- "BREAK ON THROUGH TO THE OTHER SIDE": s/ data
- RESSACA - segunda-feira, geração: s/ data
- DO POETA O QUÊ: s/ data

- FRAGMENTOS DO OLHO SAGRADO:
- I: s/ data
- II: s/ data
- (a hora de beber garrafas à lua): s/ data
- "Para venceres neste jogo": s/ data
- "Experimentámos paisagens estranhas,": s/ data
- (a lei do leão): s/ data
- a) (o que é um anjo?): s/ data
- b) (o anjo na cidade): s/ data
- (um cavalo ao luar): s/ data
- (faena): s/ data
- (fome solitária): s/ data
- "Impasse mundial": s/ data
- (tournée): s/ data


PASSAGEM DA ESFINGE

- CARTAGO ESTÁ A ARDER: s/ data
- A ESFINGE NÃO RI: s/ data
- CONVERSAS NUAS: Dezembro/ 1983 ou Janeiro/ 1984
- E DEPOIS ACORDÁMOS: 20/02/84
- MARY WAS HERE: Julho/1982 (Porto Santo) - 8/06/84 (Almada)
- A FRAUDE A LÁZARO: s/ data
- BAS-FOND: Novembro/ 1982
- BALADA DO HOMEM MORTO
AO SERVIÇO DA DEMOCRACIA: s/ data
- A CIDADE SERÁ O QUE VOCÊ QUISER
(o poeta faz uma jornada açoreana): 6/07/83 (Ponta Delgada) - 31/07/83 (Almada)
- MERCADOR DE SONHOS: s/ data
- MIRADOURO: s/ data
- MARATONA: 2/7/84 - Junho/ 1984


HIENAS

- AZAR E SLOT-MACHINE: Junho/ 1983
- A SENSAÇÃO DE NADA: Junho/ 1983
- CANÇÃO DO PEDINTE (com coros e voz solista): 23/02/84 (Lisboa)
- DISCRETA CASTRAÇÃO: Abril/ 1984
- "PALMADINHAS": Junho-Julho/ 1984 (Cacilhas)
- MORFINA (1. Shoot; 2. Flash): 5/05/84 - Abril/ 1984
- PARE ESCUTE E OLHE: Março/ 1984 (Lisboa)
- É NATAL É NATAL: s/ data
- D. DINIZ NÃO VAI ENTRAR NO REINO DOS CÉUS: 5/07/1984
- MONÓLOGO DO MICROFONE AKG: s/ data
- CHEGUEI ATRASADO À GUERRA
e agora o que é que eu faço: s/ data
- A POESIA NÃO PRESTA: s/ data
- POEMAS EXEMPLARES: 20/02/84


CANÇÕES FALHADAS

- AUTO-RETRATO E OUTRAS HISTÓRIAS SEM NEXO
- UMA HISTÓRIA CHEIA DE POLÍCIAS
- CARTA DE UM ASSASSINO A SUA FILHA QUE É PUTA
- O MONSTRO DA BELEZA
- POR FALTA DE HISTÓRIAS
- APOLOGIA MÓRBIDA DOS SERES PERANTE AS CIRCUNSTÂNCIAS
- MADAME X VAI À BAIXA
- SONHO DE UM HOMEM ENQUANTO TOMA CAFÉ
- AUTO-RETRATO
- A SOLIDÃO DE UM HOMEM NA SUA CASA: 26/06/86
- CANÇÃO DE AMOR OU CANÇÃO DE AMAR: 14/10/86
- PROSA OU POEMA DA URBANIZAÇÃO GERAL:
- I: 30/10/87
- II: 2/11/87
- III: 3/11/87
- IV: 4/11/87
- V: 5/11/87
- VI: 6/11/87
- VII: 9/11/87
- VIII: 11/11/87
- IX: 13/11/87
- X: 16/11/87
- XI: 18/11/87
- XII: 19/11/87
- XIII: s/ data
- BLUES: 1987
- ANIMAL: 29/12/87
- POEMA DE ALGUMAS PUTAS QUE JÁ CONHECI: 14/06/91


BOM DIA, VOU ACORDAR
novas canções portuguesas

BIG BEAT (e não há deus)
- FRENÉTICO: s/ data
- SONÂMBULO (eléctrico): s/ data
- NOSTALGIA: s/ data
MAILING
- CARTA A UMA CONHECIDA QUE SE SUICIDOU: s/ data
- CARTA A UMA MULHER QUE DIZIA QUE ME AMAVA: s/data
- CARTA A UMA MULHER QUE DIZ QUE ME AMA: 14/06/91
- CARTA A UM VELHO AMIGO QUE ESCREVE POEMAS: 14/06/91
NOVAS CANÇÕES PORTUGUESAS
a) COVER
- HOSPITAL: s/ data
- COMO URSO: s/ data
- CORAÇÃO BOCA A BOCA: s/ data
- CANDY ROOM CLUB: s/ data
B) LP
- CANÇÃO NOVA DE MAIO: s/ data
- DUAS AMIGAS APAIXONADAS: 21/10/91
- SOZINHO EM CASA (poetas portugueses): 26/10/91
- AMIGOS: s/ data
- AUTOMÁTICO: s/ data
- 3 BEIJOS E UM PERFUME: s/ data
- BLUES DA CONFISSÃO: 22/12/90
- BOM DIA, VOU ACORDAR: s/ data
- O FRIO ESTÁ A IR-SE EMBORA; 23-24/12/90


MILENIUM

- RAPARIGA COM CÃO: 20/11/91
- O FOGUETÃO E O COIOTE: 8/12/91
- O HAMBURGUER QUE COMEU L.A.: 1/01/92
- NÃO CHAMES QUEM PARTE: 23/09/92
- PROCESSAMENTO DE TEXTO: 8/02/93
- O TESTAMENTO DO DOUTOR WHO: 6-7/11/92
- POEMA DO FUSÍVEL: 4/03/94 - 26/04/94 - 26/07/94
- DEUSES ASSASSINOS ROBOTS
144 pensamentos ligeiros no limiar do milénio: 1995, Outubro/ Novembro


POEMAS DA RECONSTRUÇÃO
(Data geral: 1996)

MOVIMENTO UM
- GREGO TRÁGICO CÓMICO AMERICANO
- SERENIDADE NATURALIDADE PEQUENO CINEMA
- PÊNDULO TOURO CANDELABRO RUA
- INVERSO VAMPIRO CRIME DECISÃO
MOVIMENTO DOIS
- MARGUERITA REINO TRABALHO UNIVERSO
- GUITARRA VOZ BATERIA CONTRABAIXO
MOVIMENTO TRÊS
- PESSOAS ÍNDIA ILHA ANALFABETO
- NAVIO ESCREVENTE GIN SOL
- CASUAL BALÃO ÁGUA BONECO
MOVIMENTO QUATRO
- MATINAS COMBATE PROBLEMA CERTEZA
- FARDO JOGO POSIÇÃO FUGA
- SINFONIA PLÁSTICO BIGODE ESTÁTUA
- VINHO CERVEJA BRANDY CAFÉ


SITUAÇÃO 5

PROSAS
- FIM DO MÊS (ou IMPREVISTO): s/ data
- TRABALHO: s/ data
- METAFÍSICA: s/ data
- BICHO: s/ data
- PASSAGEM: s/ data
- SUPONHO: s/ data
- PRETEXTOS PROCESSOS ENGODOS: s/ data
- EPIDÉRMICO: s/ data
- UMA VIDA SEXUAL: s/ data
- NEM TE DIGO: s/ data
- A NOVA CASA: s/ data
POEMAS
- 1: s/ data
- 2: s/ data
- 3: s/ data
- 4: s/ data
- 5: s/ data
- 6: s/ data


DO CRÂNIO FEITO TAÇA

SITUAÇÃO SETE
- BREVE PAUSA ENTRE CANÇÕES: 28/01/99
- GESTOS EM POSE QUASE SERENA: 28/01/99
- FANTASIA DO MILHÃO DE DÓLARES: 28/01/99
- ENQUANTO TRATO DE OUTRAS COISAS: 29/01/99
- ESCRITA AUTOMÁTICA EM ZEN: 29/01/99
- A PALAVRA SALGUEIRO: 30/01/99
- ALTERED IMAGES & CHINESE FOOD: 22/02/99
- TEORIA DOS REFRÕES: 11/03/99
- MOMENTO FILOSÓFICO NA BERMA DA ESTRADA: 14/03/99
- AFAZERES DOMÉSTICOS: 14/03/99
- ENSAIO DO AFORISMO INCOMPLETO: 15/03/99
- VASILHAME & PORSCHE: 18/03/99

- VIAGEM FANTÁSTICA: 23/03/99


G SPOT

- DEUS COMO ACTO FALHADO: 11/04/99 - 18/04/99
- X FILE Nº 1: 1/06/99
- DO SONHO À PERFEIÇÃO: 7/07/99
- PROJECTO DIVINO VERSÃO 1.0: 7/07/99
- G SPOT: 23/07/99
- VARIAÇÕES À VOLTA DE UMA GRAVATA: 23/07/99
- NOVA JERUSALÉM: 13/07/99
- ARTE ABSTRACTA: 21/08/99
- BIELORRÚSSIA: 21/08/99
- O GRANDE PROBLEMA: 21/08/99
- ESTRANHA FORMA DE SONAMBULISMO: 20/9/99
- CHEGOU O CARTEIRO: 20710/99
- ENTRE VANESSAS E ANDREIAS: 20/10/99
- REVISÃO DA MATÉRIA DADA: 20/10/99
- BRISA APENAS: 22/10/99
- GAIVOTA/ VELA: 22/10/99
- SEMPRE EM MIM: 7/12/99
- COFFEE BREAK: 18/01/00
- CHEAP: 18/01/00


OBSERVAÇÃO DAS AVES

OURO SOBRE AZUL
(Data geral: Julho/ Agosto - 2001)
- O PÁSSARO DA MORTE: 8/08/01
- OURO SOBRE AZUL: s/ data
- CANTO DA TERRA MAIOR: s/ data
- VOCÊ TEM UMA MENSAGEM: s/ data
- BALADA DA MULHER DOENTE: 9/08/01
- ENFORCADOS: s/ data
- É JÁ ALI: s/ data
- NEM TODOS OS CÃES SÃO IGUAIS: s/ data
- FANTASIAS DE HELENA: s/ data
- TRATADO DOS MAUS SENTIMENTOS: s/ data
- OBSERVAÇÃO DAS AVES: s/ data
- DAS CINZAS DO PÁSSARO DA MORTE: 13/08/01

CIBÉRIA
(Data geral: 2001)
- QUATRO QUADRAS QUADRADAS:
- I: 18/08/01
- II: 18/08/01
- III: 18/08/01
- IV: 18/08/01
HORAS DE PONTA: 23/08/01
GRAMATICON:
- A CUSTO À PRESSA AO LARGO: 20/08/01
- DE CIMA DE LONGE DE REPENTE: 20/08/01
- EM VÃO NA VERDADE POR VEZES: 20-22/08/01
- ANTES QUE SEMPRE QUE VISTO QUE: 22/08/01
- PORQUE SEMPRE QUE: 22/08/01
- COM QUEM QUASE: 22/08/01
- DESDE EM ATÉ: 22/08/01
- PARA CONTRA SEM: 22/08/01
- QUANDO OU QUASE: s/ data
- MAS E SE: s/ data
QUATRO SONETOS SÓNICOS
- I: 18/08/01
- II: 18/08/01
- III: 18/08/01
- IV: 18/08/01
SAGA DO INFORMÁTICO
- I: 18/08/01
- II: 18/08/01
- III: 18/08/01
- IV: 18708701
- V: 23/08/01
- VI: 23/08/01
- VII: 23/08/01
- VIII: 23/08/01


POEMAS 2002

- EU VIVO: 11/03/02
- ATMOSFERA: 16/03/02
- MORGANA: 29/03/02
- CAÇADA: 29/03/02
- PÁGINAS SOLTAS DO LIVRO DO DEVER E DO HAVER: 1/06/02
- O TECIDO ERÓTICO: 1/06/02
- DE MORAR NUMA BOTA: 1/06/08
- O QUE A IDADE NOS DÁ: 1/06/02
- VIANET: 1/06/02
- DA INVEJA ENTERNECIDA: 1/06/02

fevereiro 15, 2005

INDEX "POEMAS 2002"

Décimo quarto e último volume de poemas colocado no blog. Segue-se o índice respectivo, com indicação de datas de criação dos poemas.


POEMAS 2002

- EU VIVO: 11/03/02
- ATMOSFERA: 16/03/02
- MORGANA: 29/03/02
- CAÇADA: 29/03/02
- PÁGINAS SOLTAS DO LIVRO DO DEVER E DO HAVER: 1/06/02
- O TECIDO ERÓTICO: 1/06/02
- DE MORAR NUMA BOTA: 1/06/08
- O QUE A IDADE NOS DÁ: 1/06/02
- VIANET: 1/06/02
- DA INVEJA ENTERNECIDA: 1/06/02

DA INVEJA ENTERNECIDA

Aquela mão nas tuas costas, chatice,
porque não estive eu lá, ano após ano,
a viver tudo o que vem da torneira
e vai para o esgoto?
Esta é enfim a verdadeira história
do que deixei por aí, camisas brancas,
sonhos de andar a cavalo e não ter pernas,
e umas raparigas misteriosas
com grandes seios e decotes inequívocos.
Não, não é disso que falo, não do perene
mas do constante, do que perdi
mas nunca me perdeu.
Não invejo, lamento.
Mas o meu lamento soa a covardia,
e não deixo de estar em cima do meu cavalo,
a manejar a minha espada com aquela falta de jeito
que faz rir e derrota todos os meus inimigos.
Ninguém sabe o que perdi
naquela estrada que não percorri.
Nem eu.

fevereiro 14, 2005

VIANET

Electronicamente
os corações são realmente vermelhos,
muito bem desenhados,
e as bocas carnudas,
e as flores viçosas.
Mas também os electrões são um vício,
também os mails vão para o lixo,
também a pornografia é sexo sem volume.
Não havendo culpa, há aceitação.
O mundo na ponta dos dedos
esquece os pés, esquece e não se cala,
milhões de pessoas a gritar ou a rir
é o mesmo para quem é de carne e osso.
Encaremos a triagem como uma viagem,
o écran como uma janela, o rato como um instante.
Agora apetecia-me um pouco de karaté,
um pouco de silêncio, um sorriso menos estampado.
Não, não estou cansado: quero é
transformar-me num electrão
e acordar amanhã na tua sala.
Panquecas e café?

fevereiro 11, 2005

UMAS QUANTAS PERGUNTAS INOCENTES

Como seria partir sem olhar para trás?
Quem lançará uma flor sobre a minha tumba?
O que sente de facto quem faz parapente?
Será possível mudar de nome?
Se o sexo é tão valioso porque não comprá-lo?
Como soará por aí dizer sempre a verdade?
Porque nos lembramos do mesmo de forma diferente?
Quem nos pergunta um medo quer saber de três?
Têm o que merecem os deuses que morrem?
Que fealdade existe na beleza que se conspurca?
Que nos move se amanhã será igual?
Quem nos olha quem vê realmente?
Que espaço existe entre uma faca e outra faca?
Porque há tantas águas se todas são água?
Poderá a luz ser pior que as trevas?
Saltamos para a piscina ou bebemos mais uma?
Será que todos os rios têm nome e peixes?
Desculpa, já não me lembro: que me disseste
naquele dia em que me disseste
que não me ias dizer mais nada?

fevereiro 10, 2005

NUM MOMENTO PERFEITAMENTE

Num momento perfeitamente anódino,
as línguas misturam-se sem troca de salivas,
ninguém tem família mas ainda é a tua mãe
que te faz a sopa e te lava as cuecas.
Num momento perfeitamente incaracterístico
só compreendo quem já amei porque aprendi
a arte do distanciamento e do mimetismo,
mas nenhuma fraude será aceite senão a do acaso.
Num momento perfeitamente solitário
só está só quem quer, se quiseres vomitas
na mesa e toda a gente terá algo a dizer.
Num momento perfeitamente lúcido
sorrio para dentro e é como se ainda estivesse a ver
aquele veleiro de hoje à tarde em rota de colisão
as velas pandas e o motor a trabalhar, ó marinheiro.
Num momento perfeitamente perfeito
onde estaria eu, com que, porquê,
a fazer o quê? E amanhã?
Diz-me: e amanhã?

fevereiro 09, 2005

O QUE A IDADE NOS DÁ

Não importa quem nos tira aquele ponto negro
que está sempre no mesmo sítio.
O tabaco e as piadas que se repetem são já só um vício.
O stress influencia o sono e a tolerância.
A melhor bebida do mundo é a água, mas bebemos vinho.
Perante a estupidez lamentamos a nossa complacência.
Deus é uma ideia curiosa e com barbas.
Quem tem um nome engraçado também ri dele.
É possível que alguns deixem de ter medo de répteis.
Ninguém nos engana mas somos sempre enganados.
Julgamos que já sabemos beijar, mas julgar é fácil.
Aceitamos a pele flácida como um acidente de percurso.
Acreditamos nas crianças, mas são os filhos dos outros.
Só por acaso ouvimos o que nos dizem.
Da morte continuamos com uma consciência difusa.
Votamos ou não mas o resultado é o mesmo.
Somos afirmativos mas não temos certezas.
Fazemos de conta que a dor não dói.
Somos iguais. Somos diferentes.

fevereiro 08, 2005

DE MORAR NUMA BOTA

A geografia é uma rapariga atrevida,
despe-se mas não quer fazer amor.
Manda-me para sul e eu quero ir,
para que fala ela se a escuto?
Diz-me que há destino e caminhos,
diz-me que numa bota é que serei.
Não sei. Gosto dos nomes e das paisagens,
mas das gentes muito más notícias aqui me chegam.
De uma bota espera-se sempre um pontapé,
pois é. O pior é que a rapariga tem jeitos
de sedutora profissional, defende que é possível
perder o nome, desaparecer numa festa destas.
Ouvir os outros sempre me trouxe problemas.
Deixo-me estar neste sofá grande como um barco
e digo-lhe que sim, mas não estou a pensar.
E penso: viverei para lá do próximo verão?
Nem esta rapariga mo saberá dizer.
Não importa: se é numa bota que
tenho de morar, assim será.
Ainda um dia faremos amor, rapariga.
Não me ouves já a rir?

fevereiro 07, 2005

O TECIDO ERÓTICO

Arranca-se a pele a um cozinheiro,
os dentes a um lobo, os olhos a uma serpente.
Enche-se o ar de fumo perfumado,
põe-se lenha na fogueira, respira-se fundo.
É com um martelo que se quebram
telefones, relógios e campainhas.
Apagam-se luzes, acendem-se luzes,
não importam as luzes.
Misturam-se água e azeite, misturam-se
cores e texturas, misturam-se gelo e fogo.
Está-se longe, estás-se no silêncio,
está-se simplesmente ali.
apagam-se as frases repetidas no quadro negro,
apaga-se a memória, apaga-se a história.
Arranca-se a pele a um lobo,
os olhos a um deus, cozinha-se a fome.
A nudez não sabe do frio,
a pele é um pensamento constante,
a voz é um anjo a dançar.
Com tudo isto veste-se um monstro
e ensina-se-lhe uma canção.

fevereiro 04, 2005

PÁGINAS SOLTAS DO LIVRO DO DEVER E DO HAVER

Quantos livros sombrios esquecidos
nas prateleiras em pó do contabilista?
O fim de um é o começo de outro,
mas olho para esse fim como para um gesto
já feito, acabado e definitivo,
apesar de uns quantos números esborratados:
alguém chorou sobre estas duas últimas páginas,
só sobre estas duas, precisamente,
alguém chorou e talvez tenha sido eu.
O herói não morreu, ninguém casou,
perante os números e as lágrimas
o mais provável é tratar-se de uma falência,
falências alegres só as fraudulentas.

Quem chora é como quem ama, não sabe porquê.
Não se pode ao mesmo tempo ler
a história alegre e a história triste,
não se pode no mesmo dia beber muito vinho
e reencontrar quem não se via já há muito,
não se pode falar de amor com quem
nos seduz mas não nos ama,
não se pode cantar de coração à solta
quando nos dói a garganta
e nos dói o sangue que não pára.

O contabilista, todos o sabem,
é um homem de cabelos brancos
que nunca tem nome nem idade certa:
caminha curvado, também a ele pertence
aquela rocha que rola pela encosta abaixo.
Na coluna do que tem nunca sabe o que pôr.
Que número exprime aquela festa
em que se apaixonou, quantos algarismos
designam todas as noites em que adormeceu
de mão dada e acordou livre das horas?
Só a coluna do que deve é terrível e exacta:
não deve nada, os zeros amontoam-se,
tanta coisa perdida e não sabe o quê.
Bela mulher aquela que lhe dizia
que tudo dura eternamente, que tudo ecoa
para sempre na fria fornalha das estrelas.
Mas ela nada sabia, era só uma boa amiga.
Tudo acaba, tudo se desvanece e muda
para novos significados: perde quem quer
ou quem pode? De que morte se fala aqui?

Todas as noites toca o mesmo disco, já não o escuta.
Ficou pelo caminho um rol de palavras estranhas,
ditas e escutadas, fortes e leves, azuis e quentes.
Todas as noites os dedos se cansam na expressão
dos mesmos sentimentos, soma vinte, tira vinte,
a média aritmética do que não permanece
são então as lágrimas sobre as duas últimas páginas.

Calado o desejo, o que resta ainda?
Tudo acaba em zero no mundo perfeito.
Mas quem quer um mundo perfeito?
Qual o passo intermédio que os pés arriscam
entre a memória e o esquecimento?
Lembra-se de dias de sol e é noite,
lembra-se do corpo nu e não se despe,
lembra-se do riso e esquece-se,
pois que no fundo de si não consegue esquecer.
O amor aos números sugere-lhe magia nos nomes,
mas sabe que os mágicos pagam para aprender
os seus truques de sombras em que ninguém acredita.

É no olhar que as costas se lhe curvam de cansaço,
é no olhar que alguém ainda reconheceria a criança
de que já não conhece os medos nem os fascínios.
Um contabilista não conduz arados,
tem as mãos macias e delicadas,
e é assim que ele desenha o seu livro,
com os algarismos e as letras muito bem desenhados.
Só não tem como escapar das duas últimas páginas,
nem do livro que se segue. A contabilidade
tem momentos de filme de terror: sangue,
medo, o que pode acontecer a seguir
no negrume dos sótãos,
na atrapalhação das escadas.

Nada acontece, no entanto. Lá em baixo,
na rua, rapazes e raparigas passam a cantar,
de cervejas na mão e pele perfeita.
Lá em cima, naquele terceiro andar,
naquela janela acesa, o contabilista fecha o livro.
Agora liga a ventoinha (está calor),
desaperta um botão da camisa,
um fugaz sorriso cristaliza-o no momento.

Estamos a olhar para uma fotografia.
O fotógrafo era profissional, vê-se logo.
Muitas fotografias seguidas é já cinema.
Há só uma árvore nesta rua, uma só vez
se fuma um cigarro e depois terá de ser outro.
Um novo livro é o que lhe resta.

fevereiro 03, 2005

CAÇADA

Cheira-me a raposa,
a mato de cobras rateiras,
cheira-me a gente e a verde,
cheiro e tudo cheira.
Tudo é eternidade e beleza,
tudo é ver e desenhos no ar.
Cheira-me a raposa,
a luta, a poeira,
cheira-me a tempo e a verde,
tudo cheira.
Tudo é quem o faz,
tudo é energia e jogo
e singeleza.
Cheira-me a raposa.
Cheira-me mesmo
a raposa.
Tudo cheira.

fevereiro 02, 2005

MORGANA

O teu colar não cheira a ti.
Há estranho um odor no ar.
Há um casamento de som e imagem,
nada na nossa conversa
é difícil ou hesitante.
Vai vir o calor e a boa luz.
Se fosse outro o dia outro seria
o interlocutor, serias tu ou seria eu.
O meu Merlim não é o mesmo que o teu,
mas é sempre curioso compará-los.
Não vejo porque não há-de
a poesia ser hermética,
tanto ela anseia ser música.
Cantemos essa canção:
vais gostar das ostras,
da indecisão entre a caipira e o champanhe,
vais gostar do sexo e das vozes e do riso.
Sei de um caminho:
devíamos ir para sul.
Não faço promessas.

fevereiro 01, 2005

ATMOSFERA

Não posso chorar a tristeza,
só posso cantá-la.
Não posso cantar a tristeza,
apenas dançá-la.
E não sei dançar.
Só danço sozinho, que amor
me morreu?
Só danço sozinho,
a tristeza.
Não posso chorá-la,
não posso vivê-la.
Que farei eu
com esta tristeza?
Não importa. Vou.
E choro.
E canto.
E danço.

janeiro 31, 2005

EU VIVO

Matam-me os filhos e eu vivo.
Morre-me o amor nos braços
mas não sou eu que o mato.
Não sei juntar as letras,
não sei contar os números,
confundo as vozes de quem
me fala de longe.
Matam-me os sonhos e eu vivo.
Mata-me o tempo e eu vivo.
Morrem-me nas mãos
os gestos puros.
Morre-me a voz
na canção que não fiz.
Não sei pregar um prego,
não sei pintar uma porta,
esqueço-me de dar até mesmo
o que me sobra.
Tudo me morre no instante em que o digo.
Conto os dias mas não sou prisioneiro.
Não conheço ninguém,
a morte é incerta
e eu vivo.

INDEX "OBSERVAÇÃO DAS AVES"

Décimo terceiro livro colocado no blog. Segue-se o índice respectivo, com indicação de datas de criação dos poemas.

Nota: este livro é constituído por dois livros distintos, mas que foram escritos em simultâneo, de onde redundou a minha opção por reuni-los num único volume.

OBSERVAÇÃO DAS AVES

OURO SOBRE AZUL
(Data geral: Julho/ Agosto – 2001)
- O PÁSSARO DA MORTE: 8/08/01
- OURO SOBRE AZUL:
- CANTO DA TERRA MAIOR:
- VOCÊ TEM UMA MENSAGEM:
- BALADA DA MULHER DOENTE: 9/08/01
- ENFORCADOS:
- É JÁ ALI:
- NEM TODOS OS CÃES SÃO IGUAIS:
- FANTASIAS DE HELENA:
- TRATADO DOS MAUS SENTIMENTOS:
- OBSERVAÇÃO DAS AVES:
- DAS CINZAS DO PÁSSARO DA MORTE: 13/08/01

CIBÉRIA
(Data geral: 2001)
- QUATRO QUADRAS QUADRADAS:
- I.: 18/08/01
- II.: 18/08/01
- III.: 18/08/01
- IV.: 18/08/01
HORAS DE PONTA: 23/08/01
GRAMATICON:
- A CUSTO À PRESSA AO LARGO: 20/08/01
- DE CIMA DE LONGE DE REPENTE: 20/08/01
- EM VÃO NA VERDADE POR VEZES: 20-22/08/01
- ANTES QUE SEMPRE QUE VISTO QUE: 22/08/01
- PORQUE SEMPRE QUE: 22/08/01
- COM QUEM QUASE: 22/08/01
- DESDE EM ATÉ: 22/08/01
- PARA CONTRA SEM: 22/08/01
- QUANDO OU QUASE: s/ data
- MAS E SE: s/ data
QUATRO SONETOS SÓNICOS
- I.: 18/08/01
- II.: 18/08/01
- III.: 18/08/01
- IV.: 18/08/01
SAGA DO INFORMÁTICO
- I.: 18/08/01
- II.: 18/08/01
- III.: 18/08/01
- IV.: 18708701
- V.: 23/08/01
- VI.: 23/08/01
- VII.: 23/08/01
- VIII.: 23/08/01

janeiro 28, 2005

SAGA DO INFORMÁTICO

I
Será possível no momento certo falar com a loiça,
fazer com que o bule do chá nos oiça
e se dirija para a chávena só por si.
Agora os filhos das mulheres que amo morrem de fome.

Será possível que os carros não tenham rodas
e flutuem como gaiolas no ar,
e que por amor nunca mais ninguém
tenha de morrer ou de matar.
Agora o disco rígido é pequeno para tanta memória.

Os ventos do progresso têm velocidades de tempestade,
a dança do ventre não exige a mais bela bailarina,
ainda sonho com os dedos a estalar e cai chuva.
Agora chove e as crianças passam fome.

A fome é o fim do mundo, não há ligações USB
para quem não vê o prato cheio.
A fome é o dia de amanhã que não existe, é
o vírus que preenche todas as nossas disquetes.
Agora o disco rígido morre e é noite.

II
Estou com um certo problema de sobreaquecimento,
na era do plástico ainda estamos presos ao cimento,
entre os buffers e a cache lembro coisas que não são minhas,
nem o meu chip é igual ao das máquinas vizinhas.

Se nasceste para master nunca slave serás,
no clipboard da vida o que mais manda é a necessidade,
felizmente o scanner digitaliza bem o que sinto,
e o CD-rom não só lê mas também grava,
e a bios é daquelas de boa catadura.

Se não fosse a memória e o polegar éramos quem?
Nem macacos, ridículos que somos a subir a árvores.
A destreza dos campeões, os sermões das beatas,
visite-nos, temos soluções simples e baratas.

Estou em videoconferência com os homens do silicone,
estou a teclar enquanto falo e às vezes faço zoom,
a gravata do patrão é de uma cor que me incomoda,
talvez seja da distância ou lhe falte o toner,
mas nem com o joystick o ponho a fazer um mortal.

III
Dos teus seios espero sempre que saia leite,
mas sai antes o veneno que me quer matar.
Neste momento renego todos os vícios e oiço pop.
O coro dos que sofrem é uma horrenda sinfonia.

Não só a fome mas também o medo; para quem é simples
um rato é sempre um bicho, eléctrico ou não.
Que podemos nós fazer com tanta comunicação?
Fugir para as praias, esquecer os dias?
A única verdade é esta, a de toda a gente.

A mulher dos olhos encovados está nos meus sonhos,
a mulher dos olhos azuis está nos meus sonhos,
a mulher do ferry entre ilhas está nos meus sonhos,
os meus sonhos estão algures entre Oslo e Veneza.

Faço click, capturo a beleza, no futuro
os aviões vão ser de prata e aterrar como folhas,
no futuro as tvs vão ser do tamanho de paredes,
no futuro cada um será dono do seu filme
e o sexo será simples mesmo que se fale de bananas.

IV
Ao contrário do que consta no livro sacro,
um atalho não é necessariamente um caminho espinhoso.
perante a barra de tarefas toda a acção se torna lógica,
do laser ao lazer vai apenas um pequeno rubi.

Plug and play é o que sou quando amo a quem já não me ama,
a cama é como um écran com poucas polegadas,
manadas de pixels trotam para me dar a cor perfeita
mas o shareware tem sempre as suas limitações
e a resolução final é a vida que a toma por mim.

Desfragmentar soa a caos mas afinal é coisa boa,
arquivos e pastas e ficheiros dão-nos sentido de Estado,
arrastar e largar é tão funcional como varrer,
gigabytes de beijos para todos os que aqui estão hoje
e logo à noite não percam o corrector gramatical.

Garantimos que o disco de arranque de emergência
também faz falta nos feriado e nas descidas,
e por favor não confundam um executável
com o tipo que violou três raparigas lá para o norte.

V
Quão longe da verdade se pode andar porque se ama?
Quem sobra nesta conta se todos estamos a mais?
Morro sempre que me morre uma menina,
até os cães me custa olhá-los quando sofrem.

O teu site e o meu site ainda vão dar saitinhos,
o sexo virtual resolve-se com uma boa masturbação,
rock’n’roll will never die, e um e-mail para ninguém
tem o à vontade de não chegar a ninguém,
olha que, olha quantos, olha quem.

Na minha rede ninguém faz capoeira.
E mesmo que eu crashe na próxima esquina
por falta de gasolina, que ninguém me confunda
com quem não tem investido no mercado de acções.

O rock’n’roll nunca morre, as mulheres dançam-no é pouco,
a luz dos candelabros é controlada à distância por um gnomo,
sim eu sei irmã, sim eu sei senhor, sim eu sei
e sou esta criatura sem burro nem terra
à procura de que nunca me falem de perdão.

VI
What you see is what you get, seja ovo ou omeleta,
as linguagens tanto são para surdos como para cegos,
o sistema operativo não precisa de ser num hospital
e pontos por polegada é um jogo em que ninguém ganha nada.

Do tipo de letra dizem que o meu é bonito mas os standards
vão acabar por dar aos analfabetos uma razão de viver.
Read me, diz aquele ficheiro de lágrimas amarelas,
à espera que num país do terceiro mundo como o nosso
alguém ligue muito às letras pequeninas dos contratos.

Vamos agora imprimir uma imagem imperecível,
aquele momento do jogo em que matamos o monstro maior,
ou a história dos que falam para o monitor à espera de resposta,
ou o famoso écran azul que não é o céu nem um aquário.

Não, crianças, adultos, não me cansem,
a minha fonte alimentação é toda essa barragem
que nem a placa-mãe suporta sem anestesia.
E não, não há placa-pai, não há filhos que aplaquem
a fúria desta nova revolução industrial.

VII
Invento tanto que não sei já bem como parar,
do que é básico já me esqueci e é tudo igual
e há coisas que me assombram e outras que cansam
e os becos sem saída são a minha saída.

Há quem nos cheire mal logo à distância,
será dos pés ou do pó nas ventoinhas,
do que estou certo é que é certo que o concerto
vai ser visto por seis milhões de pessoas.
Nada é tão fácil como lidar com um botão.

Não dou o meu nome a ninguém.
Não me ajoelho mas rezo. Não olho o écran.
Não me canso de dizer o que já todos sabem.
Mala cheia, os teus soutiens não cabem.

Percebes o truque, os dedos no teclado,
as hipóteses, as próteses que a técnica nos dá,
percebes ou não percebes ou pensas que percebes,
como sabes as mães acabam por falar com os pais,
uma placa de som para te ouvir,
uma placa de vídeo para te ver,
o modem acaba-nos com a modéstia.

VIII
O server trás-me uvas e lava-me os pés,
estar on-line é mesmo a última que me faltava,
faço o attachement perfeito mas não resulta,
é muita informação e nunca passa da condição virtual.

Chat sim, mas não chateies o meu humor fluído,
não me envies mails a vender-me o que já tenho,
o browser corre e ofega mas a linha é lenta,
a senhora na tv tira a blusa enquanto canta as notícias,
a adrenalina em 3D não deixa marcas nos braços.

As moscas são insectos que vivem noutra contabilidade,
os vírus são gregos mas viajam até à Polinésia,
do futuro tenho a impressão de que bastará pensar
até que aconteça alguém a voar como nos sonhos.

No futuro a tua pele será particularmente inteligente,
mas nem assim te será possível escapar à possibilidade
da realidade entrar em tua casa e não sair.

janeiro 27, 2005

QUATRO SONETOS SÓNICOS

I
Os pássaros do vinho cantam serenos enforcamentos,
no fundo do mar filmámos sereias nuas.
Fabricas bolos e vendes batatas fritas pelas ruas,
já não vivo em paz o que a vida me dá de bons momentos.

As galinhas do amor fazem ninho e não põem ovos,
os adultos e as crianças não partilham as mesmas crenças,
à sombra das tílias bebo o chá que cura todas as doenças
e o rock’n’roll é a torre babélica de todos os povos.

Ou beijo ou sofro de chicote a brincar com os animais,
hoje é longe e longe e és linda e o chão cheira a cera.
É óbvio que posso tentar aquela arte de não pensar mais

mas, minha querida, isto já não é o que era,
a lua brilha menos e às vezes sinto-me a mais.
Não obstante acredito em tudo e aqui estou à espera

II
O mundo das meninas mexe como palha no meu clítoris,
o mundo do dinheiro dá cor à minha indiferença,
os faróis são o mar em que me afogo na tua íris,
vamos todos tocar banjo e tambores na noite imensa.

Beijo-te no dia em quem és a minha estrela,
mordo-te devagar num ombro e tu não choras.
Há dias em que essa dama nem ouvi-la nem vê-la,
chamo-te puta mas tu és outra e não coras.

As novas tecnologias vêm todas em caixas de cartão.
Ai quem me dera ser mau de todo e não ter coração,
ir por aí fora a pintar os carros de sombra e luz...

A minha tia já velhinha tem medo e diz “ai jesus”,
a minha avó já morta dá voltas no caixão,
mas nunca me hão-de apanhar numa cruz.

III
Tudo começa por um piano mais ou menos desafinado,
tudo acaba num estertor de artista embriagado.
Tudo é tão diferente quando conhecemos quem o fez,
e os caracóis não se servem aquecidos segunda vez.

O telefone toca, a chuva aquece a noite reencontrada,
e se de repente me beijassem agora acho que desmaiava
(porra que falo sempre de espadas e de lutas e de nada).
Se de repente me beijassem acho que também beijava.

Nenhuma mulher devia ter marido, cornudo ou não.
Do amor só sei o que não tenho. A beleza, e o vagar.
Quem me dera ser um diabo daqueles em que a paixão

inflama noite fora sem parar e incendeia o ar.
O teu nome pode soar-me facilmente a compaixão
mas a tua voz súbita não me impedirá de amar.

IV
Primeiro, três raparigas magras desfilam no ar.
Depois são três anjos que nem sabem voar.
O sexo das sereias nenhum pintor o soube pintar.
Os meus segredos bem os gostaria de revelar.

Ergue o punho e a lança e o riso e a dor,
dança tudo o que se dança no reino do amor.
Quem sabe que sabe nunca falha um sabor.
Adeus a toda a gente enquanto o sol se vai pôr.

Compro o que é preciso para a nossa mesa festiva,
não pago irs nem irc nem iva, não pago nada,
a ópera que tu cantas não te faz nem miúda nem diva.

Adeus criança, adeus idade, adeus ausência,
a minha vida actual não se compadece da experiência.
Nem o amor nem o ódio são grande ciência.

janeiro 26, 2005

MAS E SE

mas não sabemos o que fazer com tanto lixo
mas não me disseste nada ou fui eu que não quis ouvir
mas à sombra das palmeiras os escorpiões estragam o sexo
mas o conceito de imigração não passa de uma piada
mas quando a vida sabe a água eu quero vinho
mas então chove fogo e a terra santa mata deus

e os teus lábios a cores sabem-me a manteiga
e um dia o sr. nobel contou uma anedota que nos fez rir
e a incerteza é como um veneno sem antídoto
e nunca ninguém te ensinou a felicidade
e nem o céu nem o mar são azuis nem os teus olhos
e a ansiedade cobra dividendos ao coração

se te for possível gostaria que me fizesses amor
se a arte da dança te convém pois não canses
se o mundo é a cores eu sou preto e às vezes não
se souberes o meu nome serás meu dono
se quiseres ir mais longe vem comigo sem perguntas
se não sabes o que queres eu não sei quem és

janeiro 25, 2005

QUANDO OU QUASE

quando a fome aperta o melhor é sentir sede
quando cais e te feres nos joelhos e já não rezas
quando os anéis apertam os dedos corta o braço
quando os teus beijos eram de olhos fechados sei já não te lembras
quando os aviões caem e tu só viajas de comboio
quando tens o corpo coberto de azeite e não lutas

ou então vinhas com aquele vestido que te dispo só com um dedo
ou a lagosta não transpira e tu suspeitas que é da mafia
ou bebo tanto que fico em coma por trinta anos
ou estás à espera do táxi e esfaqueiam-te e morres
ou se tivesses casado com a outra seria igual
ou mentes e é só sexo e mais sexo e mais sexo e ainda sexo

quase atinjo a perfeição das ostras, dos binóculos e dos rabinhos
quase consigo aceitar as cãs e o tártaro e o trabalho
quase podia vender a loiça e comprar um poço de petróleo
quase marcava golo se fosse jogador e ninguém via
quase o stress me matava e as lulas e o pão seco
quase a luz que vem da ti me encandeia

janeiro 24, 2005

PARA CONTRA SEM

para que não digas mais tarde que não te avisei
para todos os que acreditam que tenho uma estrela só minha
para quem nos tem escrito o nosso abraço e boas férias
para os que acreditam na morte e na ressurreição
para que o mau hálito não macule o nosso sono ao acordar
para longe e para sul e para cima e para sempre

contra quem ou contra o quê assim são as nossas estátuas
contra tudo e contra todos casarás com a serpente
contra o que nos ensinam a vida ainda é a melhor escola
contra mim mesmo destruo o renoir que herdei
contra o tempo não há remo nem vento nem marinheiro
contra a dor só sei da terapia do silêncio

sem ponta por onde se pegue assim são as bolas
sem razão é a razão dos que recusam ser iguais
sem nada a perder e nada a ganhar e nada
sem medo nem consciência nem ousadia
sem fio condutor no labirinto da electricidade
sem fome mesmo assim o melhor será comer

janeiro 21, 2005

DESDE EM ATÉ

desde que partiste que morri e tu morreste que não te sinto
desde o dia em que a nossa escola foi derrubada
desde que não me lixes nem me queiras nem em canses
desde a casa onde não vivo à rua que me repete
desde aquela vez em que estragaste tudo irremediavelmente
desde putas a amigos e clientes e meros transeuntes

em vez de dormires podias era acordar-me
em causa nada mais senão o tédio
em dias nublados sou eu o barco e o rio
em forma de rapariga que sai nua de um bolo
em nome daquela que fala com os espíritos
em riste o dedo, o punho, a força de quem sofre

até mais logo enquanto tento não sucumbir à dor
até que mesmo a morte não separe o inseparável
até há quem pense que nada acontece sem razão
até a insónia é capaz de aborrecer o desejo mais agudo
até porque os vírus não se vêem à vista desarmada
até quando não há nada que nos faça duvidar

janeiro 20, 2005

COM QUEM QUASE

com esta espada te corto ao meio cavaleiro
com o jeito desajeitado de quem aprende a dançar
com o poema na mão e um copo de sumo de laranja
com quem melhor me souber enganar para ser feliz
com três letras apenas ou espelhos ou guitarras
com tudo o que a vida me deu e nada mais

quem com espada mata sem netos morre
quem nos quer bem só nos faz sofrer
quem não é rei nem no mundo nem em casa
quem arde sem chama e se desfaz em suor
quem viu a faca a matar e por medo se calou
quem tem um desejo e não sopra uma vela

quase podia jurar que sei sempre quando vou ser traído
quase é a palavra para chegar vivo ao dia seguinte
quase como ter tudo e não ser nada
quase é o que se diz do ovo que acabou na frigideira
quase fresco ou quase quente ou quase lá
quase é um louco do qual não podemos fazer pouco

janeiro 19, 2005

PORQUE SEMPRE QUE

porque a tua saliva sempre me soube a esperma
porque quem canta nem sempre está no banho
porque mesmo com asas não saberíamos voar
porque o melhor da esgrima é o som do aço a cruzar-se
porque ninguém morre por mim e o pó anda no ar
porque depois das contas pagas inda é preciso viver

sempre soube que ia morrer sem te conhecer
sempre tive um diabo e um deus a jogarem-me no casino
sempre quis fazer a canção que te fizesse chorar
sempre houve quem me amasse sem eu saber
sempre sonhei em viver ao sol e nunca morrer
sempre pude fazer tudo o que sonhei e nunca o fiz

que não há forma de ser feliz sem o teu olhar
que o tempo nos devora mesmo que o cabelo não caia
que o riso é meia cura mas a vida é triste
que não há forma de escapar ao comboio que aí vem
que só sabe do que tem de saber quem sabe perguntar
que não há poetas na lua nem vacas felizes

janeiro 18, 2005

ANTES QUE SEMPRE QUE VISTO QUE

antes que se faça tarde solta o perfume e rasga a blusa
antes que me venças neste jogo o melhor é eu vencer primeiro
antes que a morte te apanhe apanha-a tu a ela
antes que chova já a pele cheira a cancro bronzeado
antes que o telefone toque o melhor será atendê-lo
antes que o filme chegue ao fim vou tentar adivinhá-lo

sempre que me chamam de longe eu já lá estou
sempre que a lua está cheia crescem-me os dentes
sempre que te beijo é sempre a última vez
sempre que me sobra tempo gasto-o em nada
sempre que abro uma porta fecho duas janelas
sempre que fico à espera não fico à espera e vou-me embora

visto que a música é a nossa mãe eu sou uma pauta
visto que tão depressa me dispo mais vale estar nu
visto que o mundo dos velhos é o mesmo que o meu
visto que as galinhas não voam e os peixes não falam
visto que um litro ou dez é igual ao litro
visto que não vê só quem não quer ver

janeiro 17, 2005

EM VÃO NA VERDADE POR VEZES

em vão se ergue o dia pois logo virá a noite
em vão construo a casa que tu logo derrubas
em vão ensino a liberdade, pois por ela fazem guerras
em vão se busca o novo, pois logo se torna velho
em vão se ama no escuro, pois que o amor é luz
em vão morre um homem na cruz e uma mulher o chora

na verdade crescer é um processo que ninguém acalenta
na verdade a verdade é sempre mais complicada do que pensas
na verdade nem a fé nem o amor vencem o tempo
na verdade vos digo que nada neste mundo parece o que é
na verdade morremos de qualquer maneira e de qualquer coisa
na verdade não há luz do dia na casa do medo

por vezes sinto-me como um peixe vivo engolido por outro
por vezes a falta de ar nada tem a ver com a asma
por vezes acontece algo que nos faz crer na perfeição
por vezes o professor adormece e os alunos morrem
por vezes ligo o rádio e oiço a canção que queria ouvir
por vezes de nada serve supor que as coisas mudam

janeiro 14, 2005

DE CIMA DE LONGE DE REPENTE

de cima desta lixeira um verme enorme vos contempla
de cima do meu ombro sacudo o papagaio da repetição
de cima da mesa escorrega o pão que ninguém comeu
de cima dos anjos deus livra-me das mulheres vulgares
de cima vê-se tudo e até a miséria não tem cheiro
de cima desta árvore vou lançar a minha casa

de longe é mais fácil confundir os sentimentos
de longe me parece que só cresce quem se aceita
de longe a lua parece ser mesmo desabitada
de longe a longe sou feliz por um instante
de longe ou de perto acerto sempre na mesma mosca
de longe o mundo das estrelas é perfeito

de repente é preciso pensar a sério e não pagar
de repente há coisas que nunca mais vou suportar
de repente a solidão afigura ser a melhor condição
de repente o bronzeado desaparece e a vida encalha
de repente digo não não quero não aceito
de repente digo sim digo força digo eu

janeiro 13, 2005

A CUSTO À PRESSA AO LARGO

a custo se aceita que alguma coisa de importante mudou em nós
a custo se admite que o amor possa ser uma sanguessuga
a custo se acredita que putas e copos são um bom divertimento
a custa se ganha o pão nosso de cada dia
a custo o mar galga a terra mas vence sempre

à pressa nada de jeito se faz bem feito
à pressa é conversa de patrão que há-de ir à falência
à pressa é sinal dos tempos imperfeitos em que vivemos
à pressa é mais que certo que acaba em acidente
à pressa só se come o que não se saboreia
à pressa é como transformar paisagens em segundos

ao largo aparta-te de mim e esquece
ao largo vocês os tristes os imbecis os derrotados
ao largo na montanha sou rei e no mar soldado
ao largo os crimes do mortos e as canções cansadas
ao largo os judas babosos e as mulheres frias
ao largo está o navio que nunca navega

janeiro 12, 2005

HORAS DE PONTA

olhe lá tenha cuidado com essa mala que já me rompeu uma meia olha aquele cabrão a passar com o vermelho e então o meu chefe disse basicamente é uma coisa que nos entra casa adentro e não vejo que se possa escapar-lhe a mulher já te disse é um bocado burra duzentos milhões de anos passam num abrir e fechar de olhos o que chateia nos sapatos novos é isto se não bebo já um café adormeço em pé olha rimei agora só faltava era descobrirem que o elvis não morreu já não suporto estas mulheres todas todos os dias acordo com tesão o problema do futebol quer queiram quer não é a bola o melhor é irmos beber uma cerveja e francisca não é mulher para mim limito-me a olhar e a pensar a hora da coca-cola e os tipos das obras em frente nesta mensagem ela diz que tem saudades de mim e agora o que é que eu faço? dá deus os dentes a quem não tem as nozes ny ida e volta por cinquenta contos fiz um upgrade à minha máquina agora está uma bomba mas quando é que o gajo deixa de olhar para a minhas pernas? nunca sei se tenho de olhar para a esquerda ou para a direita milena essa nunca a conheci agora não sei se hei-de ir do lado da sombra ou do sol o rio assim com estas ondas todas assusta-me um bocado e o meu chefe que é burro que nem uma porta disse teresa também eu bem a vejo morena mas ela disfarça sempre não é que me importe muito o que possam pensar de mim cruzes canhoto não me digas uma coisa dessas há três anos que não sou aumentado essa fulana já me irrita e nunca gostei dos filmes dela logo vais lá a cima beber um copo ou quê? com vocês não se aprende nada o que é que eu podia fazer não é preciso empurrar que eu tenho gasolina vê lá se depois não te arrependes olha intriguista como aquilo nunca vi e o que é que o teu pai diz a isso? por mim eram todos recambiados lá prá terra deles que eu nessas coisas da sorte e do azar não acredito quanto apostas? viste o jogo ontem? eu sempre disse que o carlos não era homem para ela tens um cigarro? detesto andar sem lenços de papel ó pá já viste aquela gaja ali? gente assim nem pintada e eu disse meninos assim não vamos a lado nenhum e tu já sabes bem como são estas coisas vai aqui dentro um pivete se me apanho de férias até digo que é mentira tu sabes lá o que me aconteceu o meu chefe disse-me hoje uma coisa que me ia passando continua a parecer-me que isso é um problema conjuntural tens um perfume novo ou não és tu? Não há razão nenhuma para fechar a loja em agosto e o que eu lhe perguntei foi porque é que não põem um relógio de ponto? A rita anda a dormir com ele ou julgas que eu sou parva? o estômago não pára de me doer no sábado apanhei um pifo que ainda estou zonzo estiveram lá uns tipos do sindicato eu já não acredito em nada do que eles dizem é pá ainda é cedo vamos ali tomar um copo então não vê que isto é uma passadeira há vinte anos que apanho este autocarro as coisas dantes eram muito diferentes sete vezes nove é quanto? Irreverência é outra coisa eu por mim esses gajos só pendurados numa árvore deve ter a mania que é engraçadinho por causa de uns pagam os outros está um calor que não se pode que me disse até foi a minha filha que elas são colegas e tudo da maneira como isto está já não sei não a rute essa ainda sonho com a mamas dela o meu chefe é que está sempre a dizer se tens vergonha vou lá eu arranjas-me uns trocos? e sabes que mais deixei de fumar não sei se estás a ver a paula aquela boca dela punha-me maluco que isto sem disciplina não vai lá hoje esqueci-me do chapéu encharquei-me todo o árbitro é que teve a culpa isto hoje não vai a abanar de mais nem nada? quatro pilhas cem escudos uma coisa é certa não se fazem omeletas sem partir ovos o que essa malta não quer é trabalhar não vejo porque é que hei-de fazer o que não quero às vezes ainda me lembro da luísa amanhã vou faltar tenho de ir com o puto ao médico olha o casamento é uma carta fechada já a minha mãe dizia e depois é sempre a mesma coisa no próximo fim-de-semana tenho de ir a casa dos meus sogros o tipo não é capaz de falar sem mentir e olha que há coisas bem piores há três anos que não sei o que são férias mas porque é que não me deixam em paz? já me passaram coisinhas tão boas pelas mãos para mim é pão pão queijo queijo posso é telefonar-te mais tarde isso não se faz a ninguém a mulher tem cá uns ciúmes que até dá dó e o que é que tem eu estar de amarelo? se não queres mais fica se há coisa que eu detesto é trabalhar com gente irresponsável via-se-lhe as mamas todas o irmão dela morreu de overdose e ela devagar se vai ao longe o tanas o meu bilhete? sei lá onde é que o meti pois bem dito bem feito no dia a seguir lá estava ela isto quem vê um vê-os a todos esta comprei-a nos saldos e depois o que é que isso me interessa? há muitas maneiras de matar pulgas aparece lá dia sim dia não então estão bonzinhos? se há coisa que me irrita é estarem sempre a dizer-me então o meu chefe voltou-se para ele e disse ó pá esses gajos falam muito mas acertam pouco mas vais comprar casa aonde? eu de música não percebo nada se a estupidez pagasse imposto até que enfim estava a ver que se tinham perdido e depois eu é que sou estúpido eu nem queria lá ir mas ele insistiu tanto porque nem todos nós somos iguais de se lhe tirar o chapéu juro falta-me o cheiro do sexo dela quer chova quer faça sol tens de ir ver este filme não tens tv cabo? uma doença de que não sei o nome e a sorte deles foi que não estava a chover nós não sabemos para o que estamos guardados deixa-me da mão já me estás a irritar grandes filhos da puta não vês o que o teu filho está a fazer? se houvesse ali um buraco no chão tinha-me enfiado nele o que o meu chefe diz sempre é está tudo pela hora da morte o que os outros pensam não me interessa ainda não tinha estado tanto frio a mim tanto se me dá como se me deu se bem que depois as coisas possam dar para o torto então não é que me cagou um pombo em cima? O melhor é não ligar a pele dela pernas acima por dentro da saia nem num número acertei deves julgar que eu sou parvo pagas um e levas dois isso para mim é tudo treta porque é que julgas que não lhe telefonei? aquilo até me pareceu esquisito então não é que o meu chefe se virou para mim e disse
mas o que é que me interessa o que o teu chefe disse? porque é que não te despes? O teu chefe rançoso e pequenino que é encornado pela mulher, disse-te que te queria ir ao cu? eu ia, ó teresa paula luísa fernanda, eu só para não te ouvir mais ponho este auscultador no ouvido esquerdo, e este no ouvido direito, carrego na tecla que diz
PLAY
vou passando por onde posso, subo pelas tuas pernas como um gatinho e aninho-me nas tuas cuecas que cheiram a calor e a um pingo de urina, entro pelo teu decote de onde os seios parecem querer saltar, deixo que me esmagues entre as tuas nádegas como se jogássemos às escondidas, essa humidade viscosa que sentes por todo o corpo sou eu a derreter-me em ti, a transformar-me em ti, na tua liberdade, em quem podias ser e não és, sou a música que ouves e não reconheces, sou o falo gigantesco que desejas mas só reconheces com o olhar, sou o desejo, sou/

janeiro 11, 2005

QUATRO QUADRAS SOLTAS

I
Não há vacina para o medo. Pomos a mesa onde se beija o barro. O acaso a todos afecta, mas a uns diminui, a outros projecta. Fugaz é a nuvem que nos molha. Dizemos: eles. Eles somos nós, e nós somos pedra.
Uma pedra não voa a golpes de asa. Falta-nos o chip na nuca, que noite mais maluca. Movimentos na indiferença, o mundo dos corvos macula a chuva e a lareira. A vulgaridade e a beleza não param de nos tentar.
Ficamos bem nas fotografias, ao lado dos canhões, limpamos as ruas bairro a bairro, pele lisa e sabedoria em coma. Ao sexo e à tv dirás sempre que sim. Será lícito afirmar que a partir de agora a nossa vida vai mudar?
Não quero folhas de acanto no desenho informático. Erguemo-nos cem vezes da queda que não damos. Há o pai, há a mãe, há cebolas e disquetes. Ligar todos os cantos da terra é sinfonia do preciosismo. Amo-te.

II
Não há vacina para a cura. As bruxas dançam sem cansar a água pura. Eis-me de pé no centro do furacão. Estou cego, morto, dá-me a tua mão. Sei o caminho, fui eu que o fiz, mas é bom saber que alguém luta por nós.
Brinda-se com qualquer líquido, água, vinho, lixívia de branquear o chão. Entre vozes escuto só a voz dos que ainda vivem no meu coração. Podíamos ir longe nas nossas naves espaciais. Somos especiais. Só nos faltam as naves.
Eu digo: “os pássaros”, e são aves, são dez homens pequeninos a espreitar a nossa nudez. Afogo as gambas em feijão, disfarço no vinho o olhar do meu desejo. Longe do coração são sombras no espelho.
Não estou velho nem temo a velhice. A morte vai apanhar-me distraído. Se eu fosse rico o meu fim aconteceria mais depressa: um cemitério cheio de advogados é mais feio que uma barragem que rebenta. Não te esqueças.

III
A cona, essa fonte onde encosto a língua e bebo, esse prazer liquefeito em sumo, lambo a cona e sou feliz, sou louco como a hora que não passa, nessa devassa do teu interior pintado de sangue e de crianças.
Abandonamos então as alianças, deus mais sincero só o que ainda está no Olimpo, sujo e cansado. Praguejo como um carroceiro pela falta de dinheiro, cruzo emblemas e desalentos, ai quem me dera ser nuvem e lixo.
Açorda, marisco fresco, loucura dos doidos que cantam à noite, dobro que dobro a minha aposta, o céu não tem cor, a querida dos homens é a mais caprichosa, o mundo é o meu reino pintado de música fácil e de cor de rosa.
Desejo o fundo dos submarinos para me afundar, os deuses do futebol para ganhar, quando eu morrer não vai acontecer nada, é um dia como outro qualquer, eu queria um cão e o acaso não me deu uma mulher.

IV
Tenho dormido mal por causa dos bombardeamentos. A radioactividade nos alimentos estraga os ossos. Os velhos bêbados atiram-se aos poços. Quem entende a vida não come amoras silvestres.
No país das uvas tenho duas meninas, vou à pesca, há barcos afundados na baía mas o pior são os estrangeiros. O dinheiro, que chatice, sempre o dinheiro, desculpem mas estou a falar do dia em que morreu quem tanto amei.
Vamos então disfarçar, pela floresta à caça do veado, do javali, de tudo o que já vi e ficava bem no meu palácio. Sim, é estranho, tenho um palácio, nunca te convidei porque não tenho tempo para te dar o que mereces.
Hoje é dia de celebrarmos os pés dos bebés. Hoje erguer-me ou cair vai saber sempre a sorriso. Fico horas perante aquele quadro onde só há casas, e depois perante o outro onde só há gente. De nada serve a quem não serve ser inteligente.

janeiro 10, 2005

DAS CINZAS DO PÁSSARO DA MORTE

No teu olhar de cinza opulenta
(porque não há princípio nem fim),
no momento exacto em que me esvaziei de mim
(porque não há morte nem esquecimento),
no receio de tudo o que é possível perder
(porque chove e está frio e o vento sopra),
na ausência de tudo o que nos faz ter sentido
(porque o amor faz andar o mundo),

porque é sombria a memória
do que já não há,
porque doce é da pele
de quem já dormiu encostada a nós,
porque a luz oculta no centro da terra
me pôs na mão esta espada de fogo,
porque é mais feliz quem acredita
e se excita na ideia de que amanhã
vai ser um dia melhor,
porque sobra a água nos meus beijos
e nessa água me deleito,
porque o meu sono é justo e certo
e quando acordo tudo ainda existe,
porque reacordo à sombra de uma estrela
que me diz que na verdade também existo,

porque o pássaro da morte
poisou no meu ombro e eu sorri-lhe
e pedi-lhe que cantasse para mim,
mesmo sendo a minha canção,
abro agora à minha volta as asas
da ave de cristal que sempre fui
e assim renasço, na sinfonia absoluta
que sempre soube ser.

janeiro 07, 2005

OBSERVAÇÃO DAS AVES

Com os meus novos binóculos
só vejo mulheres nuas.

Do cimo do depósito da água
faço o levantamento das ruas,
o desenho das varandas
das casas novas e velhas.

Agora sou uma lagartixa
no muro da tua casa,
agora sou o leão
na hora de nascer.

Os urubus voam em círculos,
os marabus escrevem enciclopédias.

Movo-me à velocidade da luz
montado num cágado.

Uma avestruz a tomar café
anula-me a líbido.

Voam patos para norte, patos para sul,
gosto das andorinhas no meu beiral.

Vejo mulheres nuas,
vejo mulheres infelizes,
vejo mulheres más,
vejo mulheres doidas.

Duas vezes na vida
sonhei que voava.

Duas vezes na vida
julguei que morria.

Duas vezes na vida
se encontra o amor.

A binóculos dados não se olha a lente.
Daqui do céu vejo toda a gente.
Vou nascer outra vez
e não sei falar.

Onde estão os flamingos?
Qual o avião que me espera?

Danço nu na floresta
perante um mocho que sorri.

Pacientemente aguardo
a resolução do universo.

janeiro 06, 2005

TRATADO DOS MAUS SENTIMENTOS

Os gordos invejam os magros,
os pobres invejam os ricos,
e todos os dias o senhor dinheiro
inventa uma nova fome.

Só fala nas costas quem tem boca à frente.

Os feios invejam os belos,
os maus invejam os bons,
e todos os dias o senhor deus
dá provas da sua ausência.

Os pequenos invejam os grandes,
os sujos invejam os limpos,
mas mal fazem uns e outros:
o lixo acumula-se em todos os quintais.

O rio inveja o mar,
o mar inveja o céu,
milhões de pássaros
voam de árvore em árvore.

A ignorância inveja a sabedoria,
a dor inveja o prazer,
os teus beijos têm mais sabor
quando não pensas.

A sombra inveja o sol,
a noite inveja o dia,
as casas vazias assustam
quem guarda medos dentro de si.

Os doentes invejam os sãos,
os baixos invejam os altos,
há arbustos novos que só florescem
à sombra das árvores velhas.

O medo inveja a coragem,
o tédio inveja o desejo,
a água não apaga todos os fogos.

O diabo inveja deus,
o coxo inveja o maneta,
a dentada inveja o beijo,
há quem nem a dormir
pareça inocente.

A cobra inveja o lagarto,
o cão inveja o gato,
o bombeiro inveja o polícia,
mas nem só de inveja
se faz a vida miserável dos vivos.

Os surdos invejam os mudos,
os fracos invejam os fortes,
os dias passam tão devagar
que a inveja sabe a desporto.

Não invejes.
Hipócrita nem cínica,
medrosa nem intriguista,
nem arrogante nem medíocre,
nem fácil nem feia.
Deixa-te conhecer.

As aldeias invejam as cidades,
as cidades invejam o campo,
o campo está por todo o lado:
baratas na tua cozinha,
formigas no teu quintal,
as rosas regadas
e só uma vive.

janeiro 05, 2005

FANTASIAS DE HELENA

Ali é o mar.
Podemos vê-lo daqui,
pela janela maior do palácio,
ou ir até lá, descalços,
pisar a areia e ouvi-lo de perto.

Aqui aprendi tudo o que sei de mim.
Aqui cresci, aqui sonhei, aqui dormi,
aqui amei pela primeira vez.

Por amor, mas também por tédio,
é-me possível supor uma guerra
em que milhares de homens se empenham
e chacinam durante anos a fio.

A velhice não augura nada de bom
a quem sempre amou a beleza,
e por isso tenho esta pressa de acontecer,
seja morte ou perfeição.

Caminho horas pelo areal vazio,
nua me lanço ao mar e nado
e faço amor com a língua das ondas.
Depois o deus azul envia-me oitenta golfinhos:
escuto as suas risadas de peixe fresco,
as suas conversas de tubarões ausentes,
de navios afundados onde os marinheiros
mortos ainda içam as velas.

Não importa que os homens morram
nessas guerras que eles inventam.

As flores crescem em cachos no meu terraço.
Não importa que outros amem se alguém odeia.

Não importa o vinho derramado nem a água suja.
Não tenho medo e há um deus
maior que os outros.

Todos os lugares da infância desaparecem.

Não lamentemos nada.
Novos lugares nos esperam.

Os homens de fato cinzento
estão já todos mortos,
tiveram filhos mas também os outros.

A riqueza é sempre uma riqueza relativa,
a canção que todos cantam é aquela
que mais vezes tocou na rádio.

Nada efectivamente se desvanece,
tudo se transforma, as nossas escolas
ensinam agora outro saber.

/.../

Perguntei a um soldado
que grandes aves eram aquelas
que passavam lá muito em cima,
com um ruído tão assustador
como o de uma má digestão.

Assim fiquei a saber
da existência dos aviões.

janeiro 04, 2005

NEM TODOS OS CÃES SÃO IGUAIS

Acordo com um cão em cima de mim.
Vejo-me ao espelho e eu próprio sou um cão.

Nesta madrugada primaveril
em que não telefonam credores
nem o nosso amor ainda acordou
para reclamar o café a que tem direito,
aí vamos nós caçadores desarmados
a sacudir o orvalho de todas as ervas,
a esquecermos nomes enquanto aprendemos vozes,
aí vamos nós dois bichos tão iguais e diferentes,
a cheirar os peixes na lagoa, os coelhos
já escondidos e o mar lá ao longe.

Hoje vamos guardar rebanhos imaginários.
Eu serei o pastor das nuvens,
e tu o rei das ervas altas.
Hoje vou aprender contigo todos os cheiros,
vamos caçar nós e enganar os caçadores,
vamos por colinas e vales como se nos
perdêssemos enquanto nos encontramos.

/.../

Há o cão do desejo,
o cão da fome,
o cão da lua.
Há um cão para cada
momento do coração.
O meu deita-se nos prados
e faz piqueniques,
emprenha as vadias,
morde calcanhares.
Só a vida selvagem nos salva.

Há um cão que cresce e alcança o mar,
há esta camisola de lã e os pés
descalços na areia molhada,
e as gaivotas anunciam o porto
de que já se vêem as luzes.
É o amor que nos chama, trágico
como a carabina que levo às costas.

Ha um cão solene
sentado nas patas traseiras,
há um cão na cama
e outro no sofá,
há um cão que ladra
e outro que fala.

Há um cão que come algas
e outro que come flores.

Há um cão que encontra sempre
o caminho de regresso a casa.

janeiro 03, 2005

É JÁ ALI

É já ali, meu amigo,
essa terra sem dono que você procura,
sessenta quilómetros bem medidos
e já vi que tem aí um bom carro.

Se ao mel ides, em livros de pedra
achareis um saber
que não sabereis ler,
mas a fonte de água pura
cura todas as maleitas.

É já ali, pegadas de dinossauros,
pedras pré-históricas, ruínas romanas,
campos de golfe e portos palafíticos,
não tem que enganar, sessenta
quilómetros bem medidos
mas dizem que vale a pena.

P’ra comer, meu amigo,
come bem em qualquer lugar.

É já ali, primeiro à esquerda e depois à direita,
o cheiro que vem da fábrica de celulose
é um mal menor, e o porto até que
nem está assim tão feio como isso,
e para quem se gasta nessas coisas da cultura,
um dos maiores poetas dos idos setenta
ensaiou aqui os seus mais verdadeiros amores.

É já ali, as estradas não são boas
mas há piores, e lá o espera
uma senhora de avental, que sabe tudo
das ruínas e do garum, e que faz
um ensopado de borrego que nem lhe conto.

É ir à confiança, que os ladrões aqui
são todos de outras paragens.

No restaurante do Gonçalves
trabalha uma rapariga que só quer é casar
e ir-se daqui para fora.

É já ali, a estalagem junto à barragem
onde se bebe a cerveja mais fresca do mundo.
As cigarras cigarram, o calor amansa as águas presas
e não há memória de galinhas a cacarejar
enquanto sonhamos. É já ali.

Veio de férias ou para ficar?
Entre mar e terra, vai ver,
sessenta quilómetros bem medidos,
é já ali e somos todos boa gente.

dezembro 31, 2004

ENFORCADOS

Manuel Lança,
padeiro de profissão,
toda a vida trabalhou e só somou dívidas,
Esmeralda do Ó,
feia e mal feita de corpo,
já não aguenta mais a solidão,
José Frade,
pedreiro e jogador de matraquilhos,
por uma aposta que perdeu,
Jacinto Carrapiço,
trinta anos feitos em Junho,
numa noite em que mais bêbedo lhe deu uma tristeza,
Cidália Catarino,
costureira, amiga de toda a gente,
por uma doença mesmo má
que a apanhou de surpresa,
João Rola,
dezasseis primaveras e canivete no bolso,
por um amor não correspondido
com uma moça bonita de outra aldeia,
Maria da Assunção,
velha e cansada,
a quem morreu o marido e todos os filhos,
Augusto Pacheco,
mãos com calos e olhar vivo,
desempregado de longa duração,
Pedro Baltazar,
vendedor ambulante,
humilhado e vencido pelos supermercados,
Fernanda Camacho,
a mais linda da aldeia,
grávida e abandonada à porta da igreja,
Júlia Larguinho,
cantadeira e criadora de porcos,
de olhar vazio por uma peste suína,
Luís Solnado, soldado longe de casa,
por nenhuma razão em especial.

dezembro 30, 2004

BALADA DA MULHER DOENTE

Era uma vez uma mulher muito doente,
comia pouco e bebia detergente.

Por amor um homem dá a volta ao mundo,
e nessa volta se perde.

Ganhei eu então as minhas asas
para cuidar dessa mulher acamada,
e de tanto a cuidar a fui conhecendo bem
e de a conhecer a tomei como amada.

Quem perde asas de águia
ganha-as de borboleta,
e foi com estas que fugi
até às dunas, e vi o mar,
e adormeci.

Acordou-me o telemóvel a tocar.
Uma mensagem urgente informava-me
de que tudo não passara de um equívoco.

A borboleta transformou-se em lagarta,
e a águia voltou a mim.

Da mulher doente soube mais tarde
que se tornara pessoa influente.
Que dava boas festas.
Que nunca ninguém a vira triste.
Que se casara com um homem sisudo
e que tinha duas meninas,
lindas como princesas.

A águia largou-me no ar,
como uma nuvem,
e eu fiquei por ali a pairar.

Há uma parte de mim
que nunca mais há-de existir.

dezembro 29, 2004

VOCÊ TEM UMA MENSAGEM


fait moi l’amour,
fait moi jouir car
j’ai envie
de t’appartenir
je t’aime plus qu’hier,
plus qu’aujourd’hui,
moins que demain

estou toda nua neste barco imenso
que é a nossa cama

Estás toda nua nesse barco imenso
que é a tua cama.
Estás nua e o barco não anda.
Dás aos remos, mas continuas
amarrada ao cais.
E a tua cama é só tua.

Tudo o que não foi dito nem feito,
o que inda poderia dizer e fazer
(e era tanto o que eu queria),
ou simplesmente não dizer nada
e deixar tudo acabar,
como se fosse natural que assim acontecesse.

Tenho uma mensagem e é mentira,
os sentimentos são volúveis e ingratos,
em vão ergo o mastro e iço a vela,
o vento que sopra não dá nem para uma
respiração boca a boca.

A distância, a ausência, a falta de fé,
três venenos para uma só morte.
Nos filmes, nos livros, nas canções,
só aí os amores são imortais.

A mensagem acorda-me a meio da noite,
o barco fantasma navega sozinho.

A mensagem é uma carta
na caixa do correio.
Abro o envelope com vapor,
decifro a escrita de limão com calor,
imagino orgasmos na antecipação
da leitura dos teus segredos.

Estou todo nu neste barco pequeno
que é a minha cama.
Ligo o radar, ligo o sonar,
leio as cartas de marear
e o pergaminho antigo
onde se fala de um tesouro possível.
Recolho a âncora, solto as amarras,
chamo o vento e os albatrozes.

No cimo das dunas no meu cavalo alado,
no cimo das vagas com a minha solidão,
nas bocas do mundo por ser como sou.

Sem bateria.

dezembro 28, 2004

CANTO DA TERRA MAIOR

Vim p’los campos a pentear os pássaros,
vim a cantar uma modinha antiga,
canta que canta o meu coração
dois a voar são três na mão

vim p’la serra no meu passo vagabundo,
a sacola sem sonhos e só com mundo,
não sou do povo
sou o povo
não sou velho
nem novo
sou o homem
passei um rio a vau, plantei a floresta
que me ensinou o amor,
deram-me uma cama,
fizeram-me rir,
fizeram-me uma festa,
falei com gente.

Pus chouriços ao fumeiro,
aprendi a cura do queijo,
e nas tardes mais descansadas
juntei-me às mulheres velhas
que cantavam
me gustan los aviones
me gustas tu
enquanto trabalhávamos o barro.

Vim p’los campos e nos campos
também se canta,
esses lindo olhos
que já foram meus
agora são doutro
agora são doutro
paciência a dele
cantam as fontes e as árvores,
cantam as ribeiras e o sol,
cantam os corações solitários
e as dores.

Penteio os pássaros
e rendo-me à alegria.
Regresso à terra antes de morrer,
regresso a mim, retomo o mundo
na minha voz e no meu olhar.

Agora que o vento sabe o meu nome
a terra sou eu: morrerei
quando a morte aprender a falar.

Cheguei a casa.

dezembro 27, 2004

OURO SOBRE AZUL

Às 3 da manhã,
a moto parada no largo deserto
e a dança sem música,
às 3 da manhã,
uma valsa ou um tango
para quem segue para sul,
às 3 da manhã,
música escrita nas paredes
e o teu vestido preto, curto e rodado,
às 3 da manhã,
apaixonado pela vida e por ti,
cravos azuis e revoluções vermelhas,
às 3 da manhã,
um beijo para sempre, o sangue,
pássaros, um olhar de chorar,
às 3 da manhã,
uma garrafa de champanhe,
aos que sofrem e aos que amam,
às 3 da manhã,
o largo deserto, nem eu nem tu,
as sombras da noite,
às 3 da manhã,
o farol da mota aceso,
a lua cheia,
todas as estrelas
e o teu cabelo doirado,
às 3 da manhã.

dezembro 24, 2004

O PÁSSARO DA MORTE

Porque nunca houve bétulas
nas margens deste lago sangrento,
porque tal lago nunca existiu senão em palavras,
porque nunca houve trutas na escuridão deste rio,
porque nunca as pesquei para a minha fábula adulta,
porque o amor foi o meu algoz
e me esquartejou o coração
e o deu em pedaços aos lobos do vento,
porque nunca um quimono caiu a teus pés
com a delicadeza branca e sedosa da tua nudez,
porque nunca os teus olhos foram esmeraldas
nem amoras os teus beijos nem jasmim o teu hálito,

porque o pássaro da morte poisou no meu ombro
e eu não o vi, fecho agora sobre mim próprio
as asas do abutre que nunca fui
e assim morro, no silêncio absoluto
em que nunca soube viver.

dezembro 23, 2004

INDEX "G SPOT"

Décimo segundo livro colocado no blog. Segue-se o índice respectivo, com indicação de datas de criação dos poemas.

G SPOT

- DEUS COMO ACTO FALHADO: 11/04/99 – 18/04/99
- X FILE Nº 1: 1/06/99
- DO SONHO À PERFEIÇÃO: 7/07/99
- PROJECTO DIVINO VERSÃO 1.0: 7/07/99
- G SPOT: 23/07/99
- VARIAÇÕES À VOLTA DE UMA GRAVATA: 23/07/99
- NOVA JERUSALÉM: 13/07/99
- ARTE ABSTRACTA: 21/08/99
- BIELORRÚSSIA: 21/08/99
- O GRANDE PROBLEMA: 21/08/99
- ESTRANHA FORMA DE SONAMBULISMO: 20/9/99
- CHEGOU O CARTEIRO: 20710/99
- ENTRE VANESSAS E ANDREIAS: 20/10/99
- REVISÃO DA MATÉRIA DADA: 20/10/99
- BRISA APENAS: 22/10/99
- GAIVOTA/ VELA: 22/10/99
- SEMPRE EM MIM: 7/12/99
- COFFEE BREAK: 18/01/00
- CHEAP: 18/01/00

CHEAP

Não controles os sentimentos.
Controla os sentimentos.
Descontrola os sentimentos.
Os sentimentos.
Desfaz-te. Derrete-te.
Pensa nos materiais
que és. Pensa na morte.
Pensa nas pessoas. Vê os cães,
os gatos, as plantas de estufa.
Pensa. Combina. Refaz.
SAVE
Pensa na sombra dos sentimentos.
Pensa: no sabor, na perda, na conquista.

Descontrola os sentimentos.

Controla os sentimentos.

Não controles os sentimentos.

dezembro 22, 2004

COFFEE BREAK

Saboreio este momento
em que nada em mim é criativo.

Toda a gente acha que falo demais.
Até eu. (Nunca mais aprendo
os truques da sínteses).
Devo ter qualquer coisa
de grego pobre
na minha alma sangrenta.

De todos os lados recebo sinais,
e fico como um homem-estátua a escutá-los.
(Há coisas para as quais
acho que já não me quero dar ao trabalho.
E sentir o peso do tempo é isso).

Passa uma sombra agora.
Só eu vejo esta mulher morta
que se arrasta.

Só quero é fugir daqui.

dezembro 21, 2004

SEMPRE EM MIM

Espera-me a água verde,
o corpo naquele charco
naquela tarde de verão,
os damascos roubados
da própria árvore,
os cães, os atalhos,
a infância.

Vem por aqui,
momento de mim,
todos nós te esperamos
com grande prazer.
Deixa-me regressar
a essa água verde,
a esse dia aventureiro
em que aprendi
a liberdade
uma vez mais.

Ou então nada me espera.
Nada sou, nada chove, nada cai.
Pois que interesso às mulheres,
mas elas não me amam.

dezembro 20, 2004

GAIVOTA/ VELA

É no momento em que o microfone é colocado
e começa a funcionar. tudo. É tudo:
no momento em que o engenheiro de som
faz o seu sinal, se a música rebenta nos auscultadores.

É fundamental aprender a cantar.
(Tento imaginar-me sem quaisquer pêlos).
É assim que se quebra a casca do ovo,
é crocodilo, ó serpente, ó pássaro.

Chama então a voz para a frente,
ó engenheiro,
e toda a música
fará súbito sentido.

Se olhar para uma rosa atómica,
vejo só um homem.
Todo o gesto é só, portanto,
a hipótese de um maestro.

A perfeição é arrepiante.
Daríamos tudo
para experimentá-la.

dezembro 17, 2004

BRISA APENAS

Descubro-me em estado diarístico.
No entanto, irónico que sou, todo o tempo
só penso na escrita.
Ainda há instantes
entrou uma brisa
(nem fria nem quente)
pela porta do café,
esta página esfumou-se
e a caneta suspendeu-se
numa pausa que me soube
deliciosa.
Neste tempo aparentemente cristalizado
posso dar-me então a um luxo:
usufruir de uma brisa.
Direi: entrou uma fada.
direi: um sinal tocou-me nas costas,
como se tivesse um dedo.

Na verdade,
ficarei extraordinariamente
silencioso.

dezembro 16, 2004

REVISÃO DA MATÉRIA DADA

Estou a ler aquele escritor estrangeiro
que creio, mesmo morto, saberá sempre
mais que eu, ele que esteve presente
num mundo que mudava por etapas
bem definidas. Enquanto este autocarro
oscila no trânsito da hora de ponta,
releio essa história onde dois homens
e duas mulheres se movem entre mármores
e árvores, plantas, pássaros, whisky e jazz.
Do mais, fico com a impressão
que se trata apenas do preenchimento
de um impresso onde as opções
são, simplesmente, sim ou não.
Sacudo-me na inércia do último semáforo
antes do retomar da minha condição
de pedestre acalorado em dia chuvoso.
Há, descubro-o, um sol que brilha só para mim.
Na verdade, sei que não vou perder tempo
a escrever ensaios acerca da felicidade.
A dialéctica é um exercício, mas, minha gente,
o meu curso está acabado, fiz da felicidade profissão.
Pois que outra coisa pode ser andar todo o dia
a cantar a mesma canção,
a deixar que ela penetre como seiva
todos os cinzentos de cada dia
nesta cidade sem opções?
Conheço Lineu, mas não lhe dou confiança.
Seiscentas equipas de investigadores
reduzem ao tamanho de átomos
todos os fenómenos físicos, biológicos,
químicos, matemáticos, filosóficos,
existenciais, comportamentais.
Quanto a mim, basta-me sentir
que, na minha rudeza muda,
é meia-noite e estou sob as estrelas,
e pelo coaxar apercebo-me das rãs
a saltar sobre a estrada, vejo-as pisadas
pelos pneus dos carros dos executivos
que andam a dormir com as secretárias,
vejo a vida e a morte nessa energia
mágica que flui das pedras negras
para as nervuras das folhas sem dedos,
sinto como quem vê a vida em tudo
e sei que nunca direi com sinceridade:
o amor é tudo, o dinheiro é tudo, a paz é tudo.
De forma vaga, deixo a consciência vogar
sobre a ideia de festa. Sim, eu sei,
as festas são fantásticas.
E não acontecem todos os dias.
Sim. E então?

A coisa que flui não pára.
A felicidade é inseparável
do movimento.

A maior festa é essa.
Eventualmente.

dezembro 15, 2004

ENTRE VANESSAS E ANDREIAS

A percepção das nossas diferenças
faz-se na troca de ideias.
Como acontecia isto há cem anos?
Como acontece isto agora,
em Nova Iorque, em Paris?
Perante os vossos dias em flor,
serei eu amoroso ou amável?
Não passa de bazófia brincalhona
afirmar que muito conheço as mulheres.
E as mulheres dos homens
pouco sabem, também.
Nos manuais de psicologia aplicada
não há resposta cabal para os efeitos
do tempo no seu labirinto.
Como tornar madura a fruta
sem a estragar, sem lhe tirar o sabor?
Vede, princesas, que é grande
o meu desinteresse, tão interessado
estou em saber as vossas prendas.
Tudo tenho para dar, e tudo
posso dar a quem aceita, tudo
isto sem cálculo nem intenção.
Malícia, a havê-la, procurai-a
no meu desejo sem moral,
na voracidade serena
de vos tirar a roupa, de vos vestir
o odor da minha luxúria.

dezembro 14, 2004

CHEGOU O CARTEIRO

E a carta tem como destinatário
um fantasma recente. Há gente
que mato com alguma delicadeza.
Há pobrezas de alma, também, que não perdoo.
A rimar: que penso eu, quando minto?
A chave da questão é haver algo
que, precisamente, não rima.
Não rimam os sentimentos
nem as sabedorias, não rima
o acinte com a compaixão.
Daí que me coloque fora-de-mão,
e quem assim conduz
é a si que se acidenta,
mas menos não posso fazer,
é terrível saber antes
o que vai acontecer.

Começo agora a fazer a listagem
das auto-estradas desniveladas
onde aprendi o uso da embraiagem,
o fluxo alimentício das mudanças.

Ergo o copo a meio de vazio
e saúdo todas as mulheres amadas.

dezembro 13, 2004

ESTRANHA FORMA DE SONAMBULISMO

A ti, que és impoluto,
vou contar a verdade verdadinha:
da erupção vulcânica só se fala
quando ela acontece. Antes, nada.
Fases da vida sem dinheiro
também têm o seu quê de salutar:
adormeço cedo, na sabedoria
de que sou mais capaz de acordar
a assobiar. Todavia,
toda a minha atenção
é no futuro que se joga.
Que futuro? Que atenção?
Um vento de monção
traz uns chuviscos engraçados,
e sobre as minhas mangas
arregaçadas é todo um mundo
de áfricas e américas
que se abre.
O meu coração está na estrada.
E haverá coisa melhor que ter
o coração na estrada?
A verdade verdadinha.
Desde já te digo.

O GRANDE PROBLEMA

Só para não me esquecer
me lembro.
Até as raparigas feias estão vivas,
digamos o que sabemos.

A arte do engate?
Como levar o copo à boca.
Amo-te. A ti
e a mais três mil. (Bronca).

O que mais amo, então? La musique.
Trinta anos a escutar o vento.

Que me diz o orgasmo,
aquele que tem humidade nos dedos
e lábios vaginais com jeitos
de pele de elefante amaciada?
Quem serei eu se só brincar
com os pobres rapazes
e as pobres raparigas?

Maldita fila para a inteligência,
a que tão madrugador me juntei.
(Imagino-me a dizer:
“Olá, sou estúpido; e tu?”).

A vida é grumosa,
tem silicone para mamilos
e cola científica que tudo
liga aos tectos.

Só para saber não esqueço,
mas é na dupla espiral
que a memória toma residência.
(Não devia ser enfermo
de questiúnculas patéticas).

Não sou rei, padre, herói ou presidente.
(Uma espécie de eczema radiofónico
diz-me que o tempo está próximo.
E as minhas relações com o medo
não passam de curiosidades,
artigos de feira).

É um tempo peculiar
aquele que busco entretanto sintonizar,
um tempo outro, mas não é
o tempo nem a vontade.
Sou eu.

O grande problema é o poder.
A grande solução seria
vencer o grande problema.

(Não creio que se possa
odiar um país).

O poder vale pela sua
sabedoria da eternidade.
Intocabilidade,
invisibilidade,
todas as possibilidades.
Money money money.

O resto
(por um momento,
esqueçamos o amor)
é pele.

BIELORRÚSIA

Uma pitada de rock’n’roll, mais trinta músicas,
e qual dançar?
Uma pitada de povo que só dança popular,
e o que pensa?
Um pingo de óleo nas articulações,
e uma reza pede
que o comboio ande.

Ao cruzar-me com os gangsters
(que aqui também os há)
faço um cumprimento discreto com o chapéu,
mas três ou quatro não me importava
de os matar.

Outra coisa fácil
é encenar um pavão.
Pois não abre ele a cauda em leque
sem que alguém lho peça?

É óbvio que me recuso a chorar.
Antes pelo contrário: muito rio,
e agora não ia mal à minha fome
um hamburguer com queijo e cebola.
É isto, aliás, o que mais gosto em mim:
o tom da minha voz, sereno, quase irónico.
Só a violência realmente me assusta
(sou capaz do pior e do melhor).

O comboio anda, anda, anda.
Passamos por aldeias incendiadas.
(Li que havia quem só buscasse
batatas para a ceia).
Também há muita neve,
incêndios ao longe
e grandes rolos de fumo negro
no horizonte.
Horizonte que não se vê.

O curioso de tudo isto
é o dinheiro que não há
e o que não quero ganhar.

Vejamos: estou certo
que não é de mim que falo.
Chamemos-me pretexto.

Oiçam esta:
e se a fêmea da princesa
fosse o princês?

Tudo é apostável na lucidez.

dezembro 07, 2004

ARTE ABSTRACTA

O ciúme é uma arma,
mas eu sou perverso.
Pois quem julgas, mulher,
que te deu esse homem?

De tão torpe que sou
só depois me apercebo:
não foi dádiva,
mas imposição.

Quanto ao mais,
o ciúme é como a morte,
se concordarmos
que a perda de cumplicidade
e a perda de consciência
são valores que se assemelham.

Por minha conta e risco,
no momento em que entendo que ainda respiro,
o que me apetece é cantar. Nada mais.
(Geralmente, só sorrio um pouco:
tudo me é fácil
e muito o que não sei).

Sim, sim,
divirto-me com a ideia
de que já foste minha,
eu que nada possuo
(possuir é ter,
ter é perder).

Diverte-me, digamos, a memória
dos acontecimentos íntimos,
a certeza de não mos
poderem roubar
desse arquivo onde os filmes
tomam um tom sépia,
e em que as imagens, haja deus,
se convertem em simples impressões.

Em determinado momento,
depois de muita conversa,
talvez conseguisses alcançar
o baloiço espiritual
ao qual me guindo
nas horas iluminadas.

A ironia é que as conversas
que agora quero
já são outras.

Só uma sugestão:
e que tal engravidares?
Tu que tens um plano.

dezembro 06, 2004

NOVA JERUSALÉM

O critério é uma gravura
algo desbotada,
uma crença
adormecida no real.
O critério é o livro de lendas
que as crianças não escutam,
um sonho, uma visão,
um caso de delírio
ausente da cor.
É colorir, acordar,
salvar as crianças.
Não há critério
a considerar.

O que se queira,
mas só um sentimento subsiste:
tudo o que antes acontece é supremo,
tudo o que acontece depois se não diz.
O sentimento resume-se a uma luz.
O sentimento ressuma
da fluidez de lugares
que só a imaginação consagra.
De facto, que nobreza há a mais
numa floresta perante um deserto,
quando a morte
se equivale à vida?

“Procuras-me?”
“Pretendes encontrar-me?”
Eis o que diz a cidade eterna,
essa onde os anjos vão ao mercado
comprar alcachofras e cogumelos,
e ninguém se vê de olhar fero
ou de punhal à cinta.
Essa cidade é só a minha
utopia número três:
outras que tive, outras terei.

Por exemplo:
não sou racista.
E a ninguém desejo mal.
Mas às vezes parece-me
haver em tudo isto, na vida,
um desejo de ditadura
que ultrapassa
o que de melhor podia
acontecer em mim.

O primeiro tijolo
teria de ser:
a terrível sinceridade.

dezembro 03, 2004

VARIAÇÕES À VOLTA DE UMA GRAVATA

Só aparentemente
estas duas figuras são iguais.
Na verdade, para além das seis
diferenças do costume,
há quem não me conheça
por me conhecer só como quer
(o que não é grave, reconheço),
e há aquela questão meio estranha
de os poemas me saírem
da caneta como uma fuga,
ou seja, do que sinto na verdade
não sei o que sentir,
fico a pensar que o tempo a passar
é mesmo a tal ratoeira
(eu que no verão sou capaz de engordar
dois quilos numa semana),
e de tudo isto (eis a conclusão)
o que soa mais certo
é que estou vestido
da cabeça aos pés,
numa cabana, a cabana
numa floresta,
a mexer uma sopa com olhos
de sapos que nunca vi,
e, ironicamente,
nem isto me excita,
nem me enerva,
nem me apaixona.
Poderia apelar a um deus qualquer,
folgazão ou sombrio,
mas a minha veia mística
ficou na outra mala,
aquela que se extraviou
entre a Enterprise e Katmandu.

O problema das gravatas é o amor.
(Será que aquela miúda loira ali ao fundo
se excita com a seda made in italy?).
Repito: o amor.
O caldeirão é mesmo então de outra história:
eis-me a derrubá-lo, a entorná-lo,
a pedir aos duendes do acaso
que alguma coisa aconteça.
Mais um tempo assim e a minha casa
será apenas uma fotografia.
Mais um tempo assim
e fico sem consciência.
Não procuro um nome,
mas aceito um olhar.
No fundo, aceito
olhares demasiados.
Repito: o amor.
Que tenho.
Que sou.
O amor.
O amor.

dezembro 02, 2004

G SPOT

Grandes reflexões
com a ponta de um dedo
à volta do ponto G.
Teorias inesperadas
garantem a verdade
da ejaculação feminina,
e eu, em transe lírico, lúbrico,
já me vejo a ver repuxos cromáticos
de magma feminino
em quartos íntimos,
homens que perceberam
o que lhes era pedido,
evidentemente
com o patrocínio da maioria
dos presidentes camarários
(unidos em associação),
pois que urge ilustrar condignas
as praças públicas, que
fascistas houve que assassinaram
as nossas mulheres,
e um orgasmo de jeito
não se nega a ninguém.

Agora que já disse a verdade,
que já pintalguei o painel
das minhas dúvidas e inquietações
no quadro do tempo que passa,
posso voltar a ser o homem erecto
de que todas as obras
cantam os feitos,
e falar, enfim,
do meu prazer.
Não há cona que aguente,
nenhum prazer na
verdade se partilha,
e se me venho, suave ou não,
a pontaria que faço
visa as estrelas, nem mais.
Mais nada na minha vida
anseia alcançar tão longe.

Posso até dizer que, aqui na terra,
essa terra-mãe que lá atrás
não soube relacionar com a baba
das conas e dos vulcões,
o verdadeiro poder
é entrar a pé pelo bairro dos bandidos,
ser saudado por todos,
e achar em cada casa
uma sala onde há uma mesa
a que me posso sentar
sem medo do vinho
que tolda as cabeças,
excitadas com o raio
do borrego ensopado.

O que faltar, as mulheres deste povo
saberão ensinar-me.